Por que o número de cesáreas cresce tanto?



Dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, realizada entre 1996 e 2006 e divulgada recentemente pelo Ministério da Saúde, revelam que nos últimos dez anos houve um aumento na realização de cesarianas, de 36,4% para 44% dos partos, contrariando as recomendações do próprio Ministério. As regiões Sudeste e Sul têm as maiores taxas apuradas em 2006: 52% e 51%, respectivamente. No sistema privado de saúde, esse percentual atingiu 81% no mesmo ano.

Em artigo publicado recentemente na Revista de Saúde Pública - O paradoxo epidemiológico do baixo peso ao nascer no Brasil - pesquisadores revelaram que bebês nascidos nas regiões mais desenvolvidas do País tem maior incidência de baixo peso (menos de 2,5 quilos) do que aqueles nascidos em áreas mais pobres. Para chegar a tal conclusão, pesquisadores de três universidades brasileiras (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal do Maranhão e USP de Ribeirão Preto) analisaram dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos entre 1995 e 2007.

Este paradoxo está relacionado a alguns fatores. Nas regiões Sudeste e Sul houve uma melhora muito significativa da assistência perinatal. Há berçários e UTIs neonatais dentro das maternidades e profissionais qualificados. Esta condição garante às crianças de baixo peso, às prematuras e mesmo às que nascem portadoras de doenças mais chances de sobreviver e de se tornarem saudáveis. 

Com tantos recursos à disposição, mulheres grávidas e alguns obstetras se sentem mais seguros e/ou tranqüilos em optar por um parto operatório programado - eletivo -, muitas vezes agendado para data bastante anterior ao término da gestação, ou seja, 40 semanas. No entanto, é importante ressaltar que o feto ganha bastante peso e acaba de desenvolver sua capacidade pulmonar justamente nas últimas semanas da gestação. Esse dado foi demonstrado em um estudo americano realizado pela Universidade de Illinois. Para chegar a esta conclusão, os pesquisadores avaliaram mais de 230 mil partos feitos entre 2002 e 2008 em hospitais dos Estados Unidos. Ao todo, 7005 bebês tiveram de ser internados em UTIs, sendo que, destes, mais de 2 mil sofreram com problemas respiratórios. Entre os casos de pneumonia, por exemplo, os pesquisadores verificaram que o problema caiu para 1,5% entre os que nasceram de até 38 semanas, e para 0,1%, para os que nasceram na 39ª semana. A menos que haja alguma intercorrência clínica na gestação que coloque a grávida ou o feto em risco, nenhum parto deveria ser agendado para antes de 38 semanas de gestação.

Para diminuir o número de cesáreas, mais do que o governo ou entidades de saúde imporem alertas de saúde, os consultórios e clínicas obstétricas precisam mudar de postura. Eles precisam orientar, alertar e educar gestantes e seus familiares quanto aos riscos de realizar um parto operatório e antecipado. A cesárea é uma cirurgia que abre e expõe a cavidade abdominal e aumenta o risco de infecção. A recuperação pós-operatória é mais dolorida e exige mais cuidados. A mulher precisa ser tratada com maiores quantidades de antibióticos, antiinflamatórios e analgésicos do que em um parto normal. Não é raro ocorrer também dificuldades intestinais. 

Parto normal é fisiológico, quer dizer, segue um processo natural. Existem várias evidências e especulações de que o trabalho de parto não é meramente uma atitude física de expulsão do bebê e, sim, uma alteração de padrão hormonal em que há liberação de hormônios pela mãe e pelo bebê, que sinalizam que o momento de nascer está chegando. 

Ao passar pelo estreito canal de parto, o tórax do bebê é comprimido; assim, ele expulsa mais facilmente as secreções das vias aéreas, melhorando suas condições para respirar no meio externo, ou seja, fora do útero. Para a mãe, além do aspecto psicológico, da satisfação da mulher em poder dar à luz, a recuperação é mais rápida e são menores as possibilidades de complicações como sangramentos, dor e infecções, por exemplo.

Ao longo da gestação, é possível e necessário que o "casal grávido" se prepare para o nascimento do bebê. Informações, dicas e técnicas podem ajudar o casal a diminuir a ansiedade da espera pelo parto e auxiliam as parturientes a aliviar a dor na hora do trabalho de parto, eliminando ou diminuindo a necessidade da anestesia e, principalmente, evitando a opção prematura por uma cesárea.

A mulher deve participar com lucidez e cooperação da experiência do nascimento do próprio filho. Uma atitude positiva em relação ao parto favorece a ligação imediata entre a mãe e o bebê. O primeiro passo para cultivar essa confiança é saber escolher um obstetra que cuide dela, que a incentive e lhe transmita segurança durante todo o pré-natal. 

Nós, obstetras, precisamos investir na popularização de cursos e técnicas específicos para gestantes, ministrados por instituições e profissionais especializados. Uns são mais voltados para os aspectos emocionais do parto, como o medo da dor; outros, para o trabalho corporal e para a discussão dos mitos e tabus que se relacionam ao parto normal, que aterrorizam a população em geral. 

Algumas práticas podem ser feitas com orientação médica. As técnicas mais conhecidas são a ginástica holística, a hidroginástica, a ioga, as técnicas de reeducação postural global (RPG), shiatsu. Por conta própria, a gestante pode fazer caminhadas. Elas melhoram a capacidade cardiorrespiratória, pois ativam e oxigenam a circulação sanguínea e, como todas as práticas aeróbicas, liberam endorfina - hormônio que neutraliza dores e gera uma euforia estável.

O parto normal deveria ser o desfecho natural da maioria das gestações. Por que não encorajar a mulher a ao menos experimentar o trabalho de parto? Com apoio e monitoramento atento e fazendo bom uso dos recursos hospitalares, podemos surpreender a parturiente e oferecer-lhe uma experiência única, mais saudável e mais natural.

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Dr. Renato Kalil

Diretor Clínico

CRM-SP 62703