Pílula anticoncepcional estimula o adiamento da maternidade



Já sabemos que o adiamento da gravidez é uma escolha muito comum das mulheres, nos dias de hoje. O número de grávidas ou mulheres tentando engravidar, na faixa entre 30 e 40 anos, tem aumentado nos últimos anos. Pelo menos 20% das mulheres aguardam até os 35 anos para iniciar uma nova família. São muitos os fatores envolvidos na decisão de adiar a maternidade: a estabilidade profissional, a espera por um relacionamento estável, o desejo de atingir segurança financeira, ou, ainda, a incerteza sobre o desejo de ser mãe... 

E neste rol de motivos para adiar a maternidade, podemos citar também o advento da pílula anticoncepcional. Segundo pesquisa da Febrasgo, Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, há uma tendência das mulheres usarem a pílula por um tempo cada vez maior devido à vida profissional e aos benefícios extra-contraceptivos do método, como a redução do risco de câncer de ovário e de endométrio, a diminuição dos cistos e a melhora da pele e do ciclo menstrual.

A evolução da pílula também a tornou mais aceita. Cinquenta anos atrás, essa medicação tinha até dez vezes mais estrogênio e cerca de 150 vezes mais derivados da progesterona do que os contraceptivos atuais. Atualmente, temos no mercado uma série de produtos com as mais variadas doses e componentes.

Com um ritmo de vida dinâmico, a mulher atual, a exemplo de alguns ícones femininos do passado, vive em constante busca por independência. Neste contexto, o surgimento da pílula anticoncepcional, no início da década de 60, permitiu que a mulher passasse a controlar sua fertilidade, conquistasse liberdade sexual com segurança e praticidade e, mais recentemente, aliasse a contracepção a outros benefícios propiciados pela pílula.

Estudo realizado pelo Instituto Guttmacher, organização de saúde sexual dos Estados Unidos, revela que 80 milhões de mulheres utilizam a pílula anticoncepcional no mundo. O maior percentual de consumidoras reside na Europa e nos Estados Unidos e utilizam o método para planejar o tamanho da família, se dedicar aos estudos e à carreira. O estudo revela ainda que, na América Central e do Sul, cerca de 16 milhões de mulheres utilizam a pílula anticoncepcional, sendo que as brasileiras usam os contraceptivos orais durante um período maior: entre dois e cinco anos.

Paralelo ao surgimento e ao aprimoramento da pílula, as mulheres iniciaram uma revolução silenciosa e discreta. A taxa de fecundidade brasileira decresce da média nacional de 6,3 filhos, em 1960, para 5,8 filhos em 1970, chegando ao patamar de 2,3 filhos, em 2000. A região Sudeste foi a que registrou o menor índice de fecundidade, 2,1 filhos por mulher, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com a opção de controlar a fertilidade, a mulher pode escolher o momento ideal para ingressar no mercado de trabalho em busca de sua independência financeira. A expansão do ensino nas décadas de 60 e 70 permitiu que as mulheres aumentassem sua escolaridade e, com isso, passassem a pensar no desenvolvimento de uma carreira. A pílula anticoncepcional surgiu em um momento favorável à uma revolução de costumes, período em que a sexualidade humana ganhou importância própria, desvinculando-a da necessidade de reprodução.

Antigamente, os papéis sexuais tradicionais ditavam que as mulheres deveriam valorizar a maternidade. Após o advento da pílula anticoncepcional, a valorização da maternidade ainda se faz presente, porém, o momento nos parece de transição, pois, somado ao antigo papel de mãe e esposa, apresenta-se às mulheres, a chance de valorização da sua permanência no meio público através do exercício profissional.

Essa coexistência de exigências sociais distintas - as advindas da família e as decorrentes do trabalho profissional - não é pacífica, e muitas mulheres ainda buscam a melhor maneira de lidar com ela. Encontrar uma solução para este impasse fica a cargo de cada mulher, ou seja, não há uma solução única. Contudo, uma opção excludente - ou o trabalho ou a maternidade - não precisa mais necessariamente ocorrer. Cabe à mulher descobrir os melhores meios, os mais congruentes com suas necessidades, possibilidades e vontades, para fazer com que a conciliação dessas duas esferas, ou mesmo a opção por uma delas, se dê da forma menos conflitante, tanto interna como externamente.

Hoje, outras possibilidades em relação à maternidade parecem estar se abrindo para as mulheres, seja seu adiamento, seja a decisão de não ter filhos. Esta escolha está, em grande parte, condicionada tanto pelo contexto imediato, quanto pelo contexto mais amplo em que a mulher está inserida.

No que diz respeito à opção por ter ou não filhos, apesar de percebermos uma mudança na sociedade com relação à antiga visão de que, para ser completa, uma mulher tinha que ser mãe, o fato de uma mulher não ter filhos faz com que, muitas vezes, ela mesma e os que a cercam a encaram como alguém que não conseguiu cumprir o seu principal papel.

O adiamento da maternidade e a opção de não ter filhos estão intrinsecamente relacionados à história de vida de cada mulher. O sucesso na carreira e a realização profissional e pessoal fazem parte hoje dos objetivos de muitas mulheres e algumas delas abrem mão, inclusive, da maternidade para alcançar esses objetivos. Isto não quer dizer, contudo, que o investimento em um trabalho que lhe dê satisfação seja visto pela mulher atual como mais importante do que ser mãe.

Para a maioria das mulheres, o ideal seria conciliar a maternidade com a realização profissional. Assim, podemos dizer que algumas mulheres atualmente começam a desconstruir antigos determinismos sociais, conseguindo impor suas opções pessoais sobre essas exigências ainda tão fortemente presentes no discurso social. As opções abertas às mulheres continuam a se expandir, mesmo que essas novas escolhas ainda tragam muitas dúvidas e conflitos.


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Dr. Renato Kalil

Diretor Clínico

CRM-SP 62703