Endometriose: doença dos tempos modernos



Primeiro sintoma: cólicas menstruais muito fortes. Muitas vezes, as cólicas são tão intensas que incapacitam a mulher para o exercício de suas atividades habituais. Segundo sintoma: dor durante a relação sexual. Estamos falando da endometriose, que também pode se constituir na causa da dificuldade da mulher para engravidar.

Além dos sintomas citados, a doença também provoca alterações intestinais ou urinárias durante a menstruação, e nos casos mais avançados, a dor pode ocorrer também fora do período menstrual.

Como as cólicas menstruais são ocorrências habituais na vida da mulher, é recomendável que a investigação das causas da cólica deve ser feita quando estas apresentarem resistência a melhorar com remédios ou quando elas incapacitam a mulher a exercer suas atividades normalmente. Pois, cólicas exageradas são o principal sintoma de endometriose e levam à suspeita de que a doença esteja instalada.

A endometriose surge, quando o endométrio, ou seja, o tecido que reveste a cavidade uterina, implanta-se fora do útero. Quando a mulher menstrua, fragmentos desse tecido podem caminhar pelas trompas, alcançando a cavidade abdominal, nela implantando-se e crescendo sob a ação dos hormônios femininos. Hoje, sabemos que mulheres normais também podem apresentar a menstruação retrógada, isto é, a que faculta a chegada do endométrio na cavidade abdominal, mas só algumas desenvolvem a endometriose. Na verdade, a doença acomete de 10% a 15% das mulheres em idade reprodutiva.

A endometriose provoca alterações no ciclo menstrual. Em geral, eles se tornam mais curtos e a quantidade de sangue eliminado é maior, mas isso não tem a mesma expressão do que a dor para o diagnóstico da doença porque muitos outros fatores podem gerar irregularidade menstrual.

A doença pode acometer mulheres a partir da primeira até a última menstruação, com média de diagnóstico por volta dos 30 anos. Em média, a mulher tem 32 anos quando é feito o diagnóstico da doença. Em 44% dos casos passaram-se cinco anos ou mais até a doença ser diagnosticada. 40% a 50% das adolescentes que apresentam cólica incapacitante, quer dizer, dor intensa que requer repouso e as impede de exercer as atividades normais, pode estar associada à endometriose. Por outro lado, a doença pode aparecer também aos 40, 45 anos. 

A doença tem muitas faces e diversas possibilidades de tratamento. O exame ginecológico é o ponto de partida para diagnosticar a endometriose. Se a doença se apresenta no ovário, o ginecologista pode perceber o aumento dos ovários pelo toque. Se acomete a região que fica entre o útero e o intestino, um tipo que se chama endometriose profunda, o toque permite perceber espessamentos atrás do útero, quando o médico apalpa essa região. Entretanto, quando a doença acomete o peritônio - tecido que reveste a cavidade abdominal - fica mais difícil estabelecer o diagnóstico pelo toque. 

Após a realização do exame físico, o médico ainda pode pedir a realização de mais dois exames para concluir o diagnóstico. O primeiro é o ultra-som transvaginal para buscar imagens compatíveis com esse tipo de doença, seja no acometimento dos ovários, seja na avaliação da doença profunda. O segundo procedimento é a realização de um exame de sangue chamado CA125 para a identificação de um marcador, que auxilia o diagnóstico, principalmente nos casos onde a doença já está bem avançada.

Para os casos de doença avançada, o tratamento é cirúrgico, seguido de complementação clínica. Para os casos iniciais, é possível compor um tratamento clínico com a pílula anticoncepcional combinada ou só com progesterona. Além disso, é fundamental a prática de exercícios físicos e trabalhar a parte emocional da paciente, às vezes, recorrendo a um suporte psicoterápico, em virtude da influência que o estresse e a ansiedade exercem sobre a doença.

Fatores de risco

A menstruação retrógrada que leva o endométrio para a cavidade abdominal e a baixa imunidade da paciente permitem que a endometriose se desenvolva. Por isso, a medicina estuda várias questões ligadas à imunidade da mulher que apresenta endometriose. O estresse está associado ao problema. Sabe-se que mulheres com endometriose têm traços maiores de ansiedade e estresse. Portanto, o estresse é um fator de risco assim como as condições ambientais, que têm sido muito mencionadas ultimamente. Isso vale para o câncer e vale para a endometriose.

Outro fator relevante para o surgimento da endometriose é o número de menstruações. Hoje, a mulher menstrua em média 400 vezes na vida, enquanto no começo do século passado menstruava apenas 40 vezes, porque a primeira menstruação ocorria mais tarde e ela engravidava mais cedo, tinha mais filhos e passava longos períodos amamentando.

O exame clínico, o emprego do marcador e o ultra-som são os meios adequados para definir as mulheres para as quais se deve indicar a laparoscopia. A laparoscopia é um exame realizado sob anestesia, com pequenas incisões no abdômen por onde se introduz um tubo ótico de aproximadamente 10mm de diâmetro para visualizar as áreas da cavidade abdominal em que se fixaram os implantes (nome que se dá ao tecido endometrial deslocado). É um procedimento cirúrgico menor que permite identificar tamanho, extensão e local de acometimento das lesões e iniciar imediatamente o tratamento adequado.

Depois que se faz um inventário da cavidade abdominal, dos pontos com comprometimento pela doença, procura-se ressecar os focos que se encontram nos ovários, trompas, útero, peritônio e intestino. Em relação aos cistos no ovário e no útero, a preocupação é retirá-los, mas preservando os órgãos, uma vez que na maioria das vezes as pacientes são jovens e têm desejo reprodutivo. Através da laparoscopia, conseguimos ressecar também os focos existentes no tecido que reveste a cavidade abdominal (peritônio) e outros mais profundos localizados nos intestinos, indicativos de casos mais graves e que demandam tratamento efetivo.

Depois da laparoscopia, quando a doença está num estágio avançado, costuma-se indicar uma medicação para suprimir temporariamente a menstruação. São geralmente medicamentos que bloqueiam a função ovariana para a paciente ficar de três a quatro meses em repouso hormonal e recuperar-se. Depois deste período, a possibilidade da doença voltar existe, porque o retorno da função menstrual pode determinar o reaparecimento das lesões. Por isso, em alguns casos, é preciso suspender a menstruação por mais tempo e tomar cuidado depois das gestações para que não haja recidivas.


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Dr. Renato Kalil

Diretor Clínico

CRM-SP 62703